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O que são esses retratos e o que eles, de fato, identificam?

  • Foto do escritor: Corte Seco
    Corte Seco
  • 19 de mai.
  • 4 min de leitura

Resenha crítica do documentário Retratos de Identificação (2014), dirigido por Anita Leandro, escrito por Yasmin Ariadne


Antes de qualquer resposta, “Retratos de Identificação” nos convida, gentilmente, a uma reflexão dupla que está subliminar em seu próprio título: o que são esses retratos e o que eles identificam? Como toda reflexão gentil, essa não é ancorada por uma interrogação e nem acompanhada de uma resposta imediata — o que, por si, já constitui um gesto político e estético preciso.


O documentário de Anita Leandro parte de fotografias, áudios e vídeos essencialmente violentos que circularam sem o consentimento de seus fotografados, produzidos e guardados nos arquivos do regime durante os "anos de chumbo" da ditadura brasileira. A partir desse material de arquivo, Anita vai em busca de depoimentos e memórias que constroem uma obra que é, simultaneamente, uma investigação sobre a imagem, uma homenagem às vítimas e uma interrogação ao presente.

O que primeiro nos atravessa ao assistir ao filme é a delicadeza de como ele é conduzido. Através de uma montagem extremamente cuidadosa e gentil, Anita se apresenta como alguém que sabe da história mas, mais do que isso, sabe quem deve contá-la. Os fatos chegam até nós mediados pelas vozes e perspectivas dos próprios personagens e são entrelaçados por seus afetos, memórias fragmentadas, revoltas e também pelos seus silêncios.


"Essa foto eu não conhecia"


Há um momento, logo após o começo, que condensa muitas das questões centrais do filme. Quando "Beto" — nome de guerra de Antonio Roberto Espinosa durante a ditadura militar — depara-se com a própria imagem na qual se encontra posado, ferido e marcado no período da prisão, e diz: "Essa foto eu não conhecia". Uma afirmação breve e forte, que abre possibilidade para diversas reflexões como: que tipo de foto é essa que não pertence ao seu próprio retratado? Que fragmento de realidade é esse que foi roubado de seu dono?


A reflexão nos remete ao que Boris Kossoy desenvolve em Realidades e Ficções na Trama Fotográfica (1999), ao nos apresentar a violência como um ator inscrito na própria linguagem da fotografia, que ronda intimamente suas convenções até mesmo em sua simples concepção, afinal, tira-se uma foto. Mas “tirar” o quê? A fotografia é sempre um fragmento arrancado, subtraído da realidade. Não é o excesso que transborda através da lente, mas sim estruturalmente, a falta daquilo que foi ignorado ao se escolher e enquadrar. Mas se toda fotografia já carrega essa dimensão de subtração, o que dizer dessas imagens tomadas sob coerção, dentro de uma cela, sem que o fotografado sequer soubesse que seriam feitas? A violência que Kossoy identifica como latente na imagem fotográfica, se torna literal, explícita e institucionalizada nesse contexto. 


Isso nos leva a uma reflexão: se um retrato é, por definição, uma foto posada, sendo um pacto entre o fotografado e o olhar da câmera, o que é um retrato tirado à força? Qual é a simbologia desse "retrato" que é, ao mesmo tempo, um enquadro e uma prisão? E, para além disso, quais são as ausências que se identificam nesses retratos a partir do que eles não são capazes de enquadrar?


Roubo de identidade


Maria Auxiliadora, a “Dora”, traz à tona outra dimensão do mesmo problema ao depor sobre as violências físicas que sofreu durante o confinamento: "Eles falaram mesmo que queriam me mudar o rosto". A ditadura não queria apenas registrar seus prisioneiros, queria principalmente deformá-los. E essa deformação operava em múltiplas camadas que os obrigava a utilizar de nomes de guerra, abrindo mão dos seus nomes verdadeiros para se protegerem dos militantes. Essa descaracterização também estava presente na substituição dos nomes — de guerra ou próprios — pelos números de enquadramento, com o objetivo de apagá-los. Por fim, a fotografia militar trabalhava aqui não com o objetivo de demarcar uma lembrança, mas sim de cravar uma evidência de humilhação, o ato de “tirar” a humanidade da vítima através de flashes, através da violência e desejo de reduzir o outro à exposição mais radical de sua vulnerabilidade. 


O que, de fato, nos identifica e constitui a nossa individualidade? Se perdermos o nome que conhecemos, o que escolhemos, e até mesmo a imagem de nosso rosto ao encararmos o espelho, o que nos ancorará como sujeitos? O que resiste após tantos apagamentos e roubos contínuos e o que dessa resistência podemos chamar de nós?

Isso recoloca a questão central do filme em novos termos: se esses retratos não serviam efetivamente à identificação das vítimas, eles identificam, sobretudo, quem não aparece nessas imagens: os seus algozes, escondidos e protegidos por uma mentalidade, um Estado e um objetivo.


O que são, afinal, esses retratos?


Se falar, preservar e lembrar das vítimas é uma forma de resistência para honrar suas memórias e valorizar suas lutas, é preciso falar também sobre os que violentaram, roubaram e assassinaram essas pessoas, para evitar que todas essas violências tenham sido em vão.


Lembramos com nitidez os nomes das vítimas e encontramos, com pesar, os vestígios de seus gritos e suas dores espalhados sem o menor cuidado e respeito em imagens facilmente localizáveis. Mas e quanto aos nomes e rostos dos agressores? Esses ficam dissolvidos na abstração de "os militares", uma categoria que distribui a culpa de forma tão ampla que quase a apaga. Apagamento diferente, porém, do que foi imposto às vítimas da ditadura: esse é um apagamento com viés de proteção, não de humilhação.


O maior problema desse apagamento protetivo é que muitos desses rostos ainda estão entre nós e, mais especificamente, à nossa frente, representando em cargos altos e políticos interesses que certamente não são os daqueles que tentaram defender a democracia que hoje os sustenta.


Os retratos que o regime produziu através de roubos imagéticos e violentos que as próprias vítimas muitas vezes sequer lembram, porque a memória também lhes foi furtada por traumas ininterruptos, não são, talvez, os retratos de identificação a que o título, afinal, se refere.


Esses estão em outro lugar escondidos e exaustos nas narrativas carregadas de dor e coragem que cada depoimento vai construindo ao longo do filme. São esses relatos que nos permitem montar, fragmento a fragmento, a imagem verídica que identifica com veracidade essas histórias com o enquadramento, o foco e a nitidez que câmera nenhuma, por mais precisa, jamais seria capaz de capturar.



 
 
 

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