“O Cheiro da Lycra”: do autoconhecimento à formação do ser
- Corte Seco
- há 2 dias
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Por Débora Romana Coêlho
Estudante do curso de Jornalismo da UFCA
O espetáculo teatral “O Cheiro da Lycra” é um monólogo escrito e interpretado pelo artista caririense Alysson Amâncio, que realizou uma de suas apresentações em 10 de junho de 2026 no Instituto de Artes Dança Cariri em Juazeiro do Norte-CE, o IADC. O autor possui doutorado em Artes e Cultura Contemporânea pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2020) e mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2015). Ele é bailarino, produtor, escritor, coreógrafo, professor, pesquisador e diretor de uma companhia de dança que carrega o seu nome. Com um currículo diversificado, Amâncio possui outras produções artísticas, sendo a peça citada acima uma representação da sua história de autoconhecimento e aceitação da própria identidade, raça e sexualidade.

Com cenário simples e sonoplastia minuciosa, a narrativa propõe apresentar um drama vivido por um homem que vivenciou dores e dilemas pessoais numa época em que mal se falava sobre preconceito e direitos da comunidade LGBT. Neste espetáculo, o narrador-personagem interpreta as memórias e falas dos pais, adicionando também a sua perspectiva sobre cada acontecimento, atuando por meio de falas e da performance corporal.
Inicialmente, o artista utiliza como figurino apenas camisa e uma peça íntima masculina, ambas na cor preta. Ele começa a peça em silêncio, olhando fixamente para o público; a iluminação diminui e foca no canto do palco numa espécie de banco, onde há roupas em cima desse assento. Ao sentar-se, a primeira peça que o ator toca é uma legging de lycra, ele sente o cheiro da calça e a veste, como se fosse agradável ao seu corpo. Essa parte do roteiro claramente faz alusão ao título da produção, e nos faz pensar que essa sensação de prazer ao cheirar a peça de lycra se dá justamente porque o tecido comumente remete à confecção do vestuário feminino. Aos poucos os sons de animais caprinos e bovinos começam a tomar conta do ambiente, e o intérprete vai vestindo outras peças de roupas presentes naquele espaço. Diferentemente da roupa de lycra, as peças de roupa que se equiparam às vestimentas de vaqueiro, causam repulsa no personagem, como se ele tivesse que usá-las por obrigação mesmo discordando. É a partir daí que ele começa a relembrar memórias da sua vida familiar e refletir sobre o contraste do convívio que teve com seu pai e a sua mãe.
A figura paterna, nesse cenário, transmite autoridade e masculinidade. Por meio dos relatos da juventude do protagonista, é possível notar que ele sente medo do pai e que este, por sua vez, exerce um poder destrutivo sobre a vida do rapaz. O jovem se anula a todo custo para manter as aparências e agradar essa referência paterna. Entretanto, ainda que se esforce para conquistar a admiração do pai, tentando parecer com ele, é visível o sofrimento pessoal e a distância na relação entre os dois.
Em determinado momento, o personagem recorda sua infância, e a sonoplastia transmite a narração de um jogo do Icasa (time de futebol tradicional da região de Juazeiro do Norte-CE). Muitos ainda entendem que esse esporte é majoritariamente incentivado para meninos, porém o garoto ficava visivelmente desconfortável naquela situação. A mãe, que até então é retratada como uma esposa submissa em relação ao marido, contraria a expectativa dele ao afirmar que o filho prefere dançar e estar com meninas.
Essa referência materna também tem os seus preconceitos. Isso é revelado quando o ator narra algumas orientações que a sua mãe dava para que ele não tivesse lábios grossos, ou até mesmo para evitar o “nariz de batata”. Essas características físicas são naturais em pessoas negras, então fica subentendido que provavelmente por ignorância ou influência, a mãe do personagem tinha ideologias racistas.
Num ato específico, o protagonista tira todas as roupas que simbolicamente remetem às expectativas dos pais e de qualquer julgamento social sobre ele, e beija a si mesmo em vários lugares do corpo; após este ato, Amâncio interpreta uma coreografia da música “Bixa Preta”, da cantora e compositora Mc Linn da Quebrada. Nota-se que ao avaliar que essas convicções preconceituosas pertenciam aos outros e não a si próprio, houve uma ressignificação daquelas experiências pessoais e uma mudança psicológica ao reconhecer a própria identidade. Libertar-se dos costumes adquiridos na infância e conhecer a si mesmo como homem gay e com raízes afrodescendentes pode ser considerado nesse contexto como ato de resistência e amor-próprio. A escolha musical e a coreografia revelam a fase atual do sujeito e a efetivação do desejo pessoal concretizado por ele.
A exibição desta peça foi uma iniciativa do projeto Conversas Dramatúrgicas, da Universidade Federal do Cariri (UFCA), coordenado pelo professor do curso de jornalismo Tiago Coutinho. Por meio do perfil do Instagram @namidia.ufca, é possível acompanhar uma entrevista com Alysson Amâncio e conhecer um pouco mais sobre o projeto, que tem o objetivo de promover espaço e fortalecer a produção artística LGBTQIAPN+ na região do Cariri. Sem dúvida, “O Cheiro da Lycra” possui grande valor representativo para a comunidade, para admiradores das artes cênicas contemporâneas, bem como para todo o meio acadêmico que estuda e pesquisa sobre temáticas delicadas e reais como as que são retratadas nesta produção.




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