O desconstruir do "cabra-macho" em "O Cheiro da Lycra"
- Corte Seco
- há 2 dias
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Por Ana Clara Souza
Estudante do curso de Jornalismo da UFCA
O homem tenta se despir da calça de lycra como quem tenta despir-se da própria pele, enquanto a voz de sua mãe ecoa repetidamente: ‘’tira o Alysson do Time, ele não sabe jogar futebol. O Alysson quer ser menina (...)’’. É nesse cenário que se apresenta o espetáculo O Cheiro da Lycra, apresentado no Instituto de Artes Dança Cariri, IADC, na noite do último dia 10 de Junho. O projeto nasce das memórias do intérprete-criador Alysson Amâncio e de seu processo de se assumir gay, bailarino e negro, tendo crescido no interior do Ceará.

Desde cedo, Alysson Amâncio foi colocado dentro das expectativas do que significava nascer "macho", em uma realidade marcada por estereótipos de gênero que ainda persistem. Assim, O Cheiro da Lycra aborda a luta constante e muitas vezes difícil de se desprender da lógica de ‘’cabra-macho’’ do Nordeste, branco hétero e valente.
Um dos aspectos mais interessantes é que o espetáculo transforma o corpo em um espaço de memória e resistência. A lycra deixa de ser apenas uma roupa e passa a representar marcas, lembranças e regras impostas sobre o corpo. O próprio título do espetáculo sugere que certas experiências permanecem "impregnadas", como um cheiro difícil de apagar. Durante grande parte da produção, Alisson reside em constante confronto com seu próprio eu e dialoga com o público a respeito da tentativa de não se tornar uma figura bruta e preconceituosa, como a rigidez paterna lhe obriga a ser.
Outro recurso bem aproveitado é a trilha sonora da apresentação, que é usada para transmitir uma mensagem de mudança temporal e psicológica à medida que assistimos dois ‘’espaços’’, apresentados por meio de diferentes melodias. No início da apresentação, escutamos efeitos sonoros simbólicos associados aos nordestinos, perpetuando uma atmosfera nostálgica da criação do personagem. Ao final, esse cenário alcança outra perspetiva quando escutamos Bixa Preta, de Linn da Quebrada, música que marca a exibição e nos leva a refletir como a própria letra influencia na caracterização de Alysson, agora, verdadeiramente livre para ser quem ele sempre foi, apesar de todo preconceito sofrido e retratados nos versos da música.
Uma das cenas que mais chama a atenção de quem assiste é o momento em que o ator beija o próprio corpo. Esse gesto, aparentemente simples, carrega um forte simbolismo, representando o amor-próprio e a aceitação de si mesmo. Ao beijar o próprio corpo, o intérprete demonstra um processo de reconciliação consigo mesmo, valorizando sua história e sua identidade.




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