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“O Agente Secreto”: Um Mergulho na Pirraça e na Violência da Ditadura

  • Foto do escritor: Corte Seco
    Corte Seco
  • 14 de abr.
  • 3 min de leitura

Escrito por Maria Antônia Costa e Maria Clara Ribeiro Duarte


Lançado em 2025 e dirigido pelo pernambucano Kléber Mendonça Filho, “O Agente Secreto" se consagra no cinema nacional ao construir uma narrativa que entrelaça política, cultura e memória. Ambientado durante os anos do regime ditatorial brasileiro, especialmente no governo do general Ernesto Geisel, o filme propõe uma reflexão sobre a memória coletiva em torno desse período histórico marcado pela repressão. 


Protagonizado por Wagner Moura, acompanhamos a trajetória de Marcelo em Recife no ano de 1977, época descrita no início do longa como de muita “pirraça” no Brasil. Com atuações envolventes de um elenco amplo, a trama desenvolve-se durante o carnaval, explorando o contraste entre a euforia coletiva e a realidade cruel que caracteriza o momento histórico. 

   Apesar de apresentar um tema recorrente no cinema brasileiro, a ditadura militar, o filme não restringe a responsabilidade pelo golpe apenas aos militares, mas também aborda o papel dos empresários que o financiaram, lucraram com o processo e ampliaram a concentração de renda no país. Isso é representado de forma direta por meio do personagem Henrique Ghirotti, interpretado por Luciano Chirolli.  

Nesse contexto, o filme constrói uma atmosfera marcada pelo medo e violência, que não se manifesta apenas de forma explícita, mas também nos conflitos silenciosos que marcam o cotidiano dos personagens, como os moradores do Edifício Ofir, considerados “refugiados”, que escondem suas verdadeiras identidades. A recorrente presença do tubarão surge como um elemento simbólico, representando uma ameaça constante e invisível, que espreita e controla sem necessariamente se revelar por completo. Assim, mais do que um recurso narrativo, a figura do animal reforça a sensação de vigilância e perigo iminente. 

          E no meio destas diversas referências, a mais citada é, sem dúvidas, a “perna cabeluda”, como um personagem próprio, muito além de apenas um elemento da narrativa, e que transforma o filme, de repente, num thriller slasher, sem perder a atmosfera que vinha construindo. Dentro do imaginário dos recifenses, a “perna cabeluda” não é só uma lenda urbana, é um recurso utilizado pelos jornais para burlar a censura da ditadura militar. Como os jornais não podiam denunciar diretamente as agressões cometidas pelo Estado, eles criavam histórias lúdicas e surreais. Quando a polícia saía para "dar um passeio", a imprensa noticiava que a "perna cabeluda" havia atacado alguém. 

       No meio do medo, da tensão, da pirraça e também do humor — retratado divinamente bem em personagens como a Dona Sebastiana (Tânia Maria) por exemplo —, Kleber Mendonça Filho nos convida a adentrar no Recife da década de 70 de uma forma como ninguém nunca fez, e talvez ninguém nunca o faça igual. Ao longo das 2h40m de filme, assistimos a história de um homem que é vítima da ditadura sem nunca ter lutado contra ela, pois ousou, simplesmente, em desafiar a opressão contra as universidades públicas. Muito mais que isso, assistimos à história de uma década marcada pelos crimes e absurdos normalizados, onde a foto de um homem morto a tiros é exposta na primeira capa de um jornal, sem se sensibilizar pela vida humana perdida ali. 

       No fim das contas, o filme de Kleber Mendonça Filho usa a simplicidade do dia a dia para mostrar o horror daquela época. Ele foge das fórmulas prontas e conta a história de um jeito natural, quase como se o espectador estivesse espiando a vida de alguém pela janela. O objetivo principal é fazer a gente sentir a frustração de ver tantas vidas e histórias sendo apagadas pela ditadura, virando apenas pedaços soltos em fitas cassete. Além de, claro, um fim anticlimático, porém necessário, que simboliza tudo o que este terrível período de nossa história nos deixou. Mais do que um filme, é um lembrete importante do nosso passado, para garantir que esses absurdos nunca mais voltem a acontecer.


 
 
 

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