top of page

O Deus dos Cachorros

Foto do escritor: Corte Seco
Corte Seco
20 de ago.
5 min de leitura

Resenha do filme "Arábia" (2017) de Affonso Uchôa e João Dumans

Por Yasmin Ariadne


"Arábia" foi premiado em quatro categorias no Festival de Brasília de 2017, incluindo os prêmios de Melhor Filme e Melhor Montagem
"Arábia" foi premiado em quatro categorias no Festival de Brasília de 2017, incluindo os prêmios de Melhor Filme e Melhor Montagem

Uma música calma com dedilhados íntimos no violão acompanhados de uma voz grave mas não muito trabalhada, no sentido de que o cantor não parece estar apenas cantando, mas também conversando conosco. Um jovem pedala pela estrada, os relevos a sua volta nos lembram de como o nosso país é lindo. Quando ele acelera as pernas e se levanta um pouco, fiquei torcendo pra que ele abrisse os braços e começasse a encenar um voo. A música, o cenário, o personagem e o seu levantar sem tirar as mãos do guidão da bicicleta: eram todos elementos que anunciavam essa decolagem. 


Mas eu não sabia inglês — e que bom. Talvez, se eu soubesse, se a música fosse na língua que eu entendesse, eu não teria fantasiado tanto um começo. Porque, embora André pegasse velocidade a todo custo, ele nunca levantou voo. Deve ser por isso que depois dos 3 minutos iniciais de preparação em movimento, migramos para a cena estática de muros feitos de grades.


Maybe tomorrow, honey (talvez amanhã, querida)

Someplace down the line (num ponto qualquer do caminho)

I'll wake up older (vou acordar mais velho)

So much older, mama (muito mais velho, mamãe)

Wake up older (acordar mais velho)

And I'll just stop all my trying (e eu vou simplesmente parar de tentar)

…

Wherever I have gone (onde quer que eu tenha ido)

The blues are all the same (a melancolia é sempre a mesma)

Blues Run the Game, canção de Jackson C. Frank que faz abertura do filme Arábia


Mas o que seria mais brasileiro do que começar um filme nacional com o título sendo o nome de outro país, com uma música em um idioma que menos que 5% da população entende? E, para além disso, por que isso importa? Um sentimento que é constante no filme, embora nunca seja verbalizado, é sempre traduzido em atos, olhares e gestos: o cuidado. Conhecido por ser o povo mais hospitaleiro e caloroso do mundo, o brasileiro entende bem o que é carinho e o que não é. Tradutores universais do cuidado e dos limites, aprendemos desde cedo, apesar da dureza e complexidade das relações, quando algo é pra gente e quando está distante de nós. O que não sabemos é parar diante do que essa tradução nos diz — talvez, por sermos também conhecidos por nossa garra e persistência.


O filme é quase uma demonstração desse processo de aprendizagem, misturando o amargor das dores com o afago dos cuidados. Seja na água fervida de madrugada, uma carona inesperada, uma palavra amiga e uma roda de música com um violão, o cuidado cerca todos os personagens , tal qual a nossa rotina. Já Deus aparece nessas entrelinhas, sempre na encolha e na expectativa. Às vezes invocado em diálogos atravessados, como o de André, o menino da bicicleta, com o seu irmão caçula, uma criança: "Você acredita em Deus?", pergunta André. "Acho mais fácil existir um capeta do que Deus", responde a criança. "Por quê?", retruca André na curiosidade. "O mundo só tem matação, tiro, morte… Não tem um milagre", o silêncio posterior após a resposta dá abertura para a reflexão das palavras ditas por uma criança precocemente desesperançosa. Outras vezes, Deus aparece como um amigo antigo com quem se perdeu contato.


Mas independente disso, o filme é sobre o que exatamente? O que esses elementos querem nos dizer?


O letreiro com o título do filme surge apenas aos vinte minutos, justo quando Cristiano começa a contar a própria vida. Mas, quem é Cristiano? A princípio, apenas um operário que se mudou há algum tempo para a cidade para trabalhar em uma fábrica. Não se sabe muito sobre ele, apenas que seu único amigo, que também trabalhava na fábrica, foi demitido e desde então ele não tem mais ninguém próximo o suficiente para lhe fazer companhia no hospital em que ele está internado, depois de sofrer um mal súbito durante o trabalho. André vai até a casa de Cristiano em busca de roupas e documentos para ajudá-lo na internação, é nesse momento que encontramos o caderno de Cristiano, nosso protagonista.


Conhecemos a identidade de Cristiano a partir da sua escrita carregada das lembranças e memórias dos seus muitos e diversos ofícios. Quase como se para se lembrar de si fosse preciso percorrer antes todos os lugares em que ele trabalhou.


De forma sútil, o filme nos apresenta a existência de uma pessoa através da sua produção e não a produção como consequência da sua existência. Há uma inversão de valores que acaba ficando mais evidente conforme Cristiano descreve e reflete sobre sua rotina, sonhos e desejos, que permitem a gradativa tomada de consciência que é carregada com os sentimentos de cansaço, desesperança e injustiça.


Pouco a pouco, o retrato de Cristiano vai se tornando uma vastidão de complexidades que vão além do que uma foto 3x4 em uma carteira de trabalho poderia identificar, representando a revolta de alguém que trocou sonho por sobrevivência sem perceber que assinava a troca e vendo seu sangue vermelho de jovem sonhador se tornando óleo e fluidos de uma máquina tão exausta que é incapaz de pensar sobre seu estado de permanência, estando alheia ao seu próprio corpo e destino.


É a água fervida de madrugada, a carona que aparece do nada, a cerveja depois do expediente, um abraço amigo, a roda de violão com risadas e as inúmeras conversas com os colegas de trabalho que acabam se tornando competições de quem sofre mais no trabalho que trazem para nós, e para o Cristiano, o alarme que nos desperta para a existência da vida que existe além do trabalho, trazendo consigo a consciência de que essa vida também é nossa por direito.


A resistência para enfrentar a desigualdade vivida, muitas vezes fantasiada de “dias de luta” só consegue permissão para existir através do coletivo, da união. É o mesmo carinho permeado em todo o filme, que atravessa a tela e toca nas nossas próprias lembranças e memórias, nos lembrando que “garra” e “persistência” não são características de um povo incansável, mas sim consequência de uma população exausta e adormecida a força por um sistema que exige produção às custas da saúde e bem estar.


O final do filme nunca volta para André ou para Cristiano no hospital, porque a mensagem nunca foi sobre adoecer e ser mais fácil acreditar em um capeta do que em Deus. O filme é um convite para participar da revolução, se curar através da fé na união. Porque “um cachorro pequenininho não pode enfrentar dogão, não, mas se cê junta mil cachorrinhos, o dogão é que fica pequeno” — e não há nada mais perigoso do que um povo acordado.

Comentários


  • Instagram
  • Youtube
  • Spotify
bottom of page