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Vermelho de Bolinhas: uma história que vai muito além do rosto de uma santa

  • Foto do escritor: Corte Seco
    Corte Seco
  • 31 de mar.
  • 3 min de leitura

Escrito por Letícia Moreira Rocha


"Vermelho de Bolinhas" (2025) é um curta-metragem cearense, dirigido por Joedson Kelvin e Renata Fortes, que aborda a construção da memória e imagem de Benigna Cardoso da Silva. O filme utiliza elementos simbólicos como o vestido vermelho de bolinhas brancas para retratar a fé e resistência no Cariri. 


O curta se inicia com uma narração que apresenta Santana do Cariri, cidade localizada no interior do Ceará, por meio das chamadas “imagens-mundo”, imagens que reúnem memórias, paisagens e aspectos culturais que ajudam a construir a visão que se tem do local, evocando um olhar afetivo do locutor que cresceu vendo esses lugares. No entanto, essa perspectiva rapidamente se tensiona, uma vez que o narrador faz uma crítica, ao relembrar que Santana já foi mar, porém, mesmo com a imensidão de água, nem todos têm acesso a ela. A todo momento, narração e imagem se complementam, trazendo também momentos de silêncio que convidam à reflexão.


A trama principal gira em torno de Benigna Cardoso da Silva, uma menina que aos 13 anos, que foi assassinada após resistir a uma tentativa de violência sexual, o que hoje se configura como feminicídio. O crime ocorreu em 24 de outubro de 1914, enquanto a menina ia a uma cacimba, em um período marcado por uma das maiores secas da história do Ceará.O atentado contra sua vida acabou se tornando um elemento de fortalecimento da fé popular.


Outro fato que dá continuidade à história é que não há nenhuma imagem que mostre de fato como Benigna era fisicamente. Entretanto, foram criadas algumas tentativas de representações. Enquanto a primeira representação, feita por Sandro Cidrão, tenta aproximá-la de uma figura humana marcada pela violência, a versão adotada pela Igreja Católica idealiza sua aparência, enfatizando pureza e santidade. 

Em 2011, a Igreja Católica assume a causa. Para a instituição, o rosto deveria ser de uma menina pura que “preferiu morrer para não pecar contra a castidade”. Em outubro de 2022, ocorreu a beatificação de Benigna e foi oficializado o retrato: ‘’uma moça de pele clara, traços finos, nariz e bocas perfilados, olhos amendoados e cabelos castanhos. Uma imagem clássica e parecida com a de Jesus Cristo’’, que mesmo com as marcas de violência era retratado de forma serena. 


Anos depois vários comércios de Santana do Cariri têm o rosto ou até mesmo o nome da santa, como forma de homenagem. Nos altares domésticos, existem várias representações de imagens da menina, não tem uma imagem única. No documentário, algumas mulheres informam que tudo é parecido, que “a fé é só uma”, outra até destaca que a mais diferente é a retratada pela igreja católica. Contudo, uma coisa é comum a todas as imagens e faz com que a identidade de Benigna seja notada, um vestido vermelho com bolinhas brancas. 


Assim como não há foto, não existe um registro que ela usava esse vestido no dia da sua morte, esse vestido existe por conta da tradição oral, essa estampa dá rosto para a menina sem face. 


Ao final, seu rosto é representado no semblante de outras mulheres. Esse trecho traz uma importante reflexão, que talvez essas mulheres podem representar tantas outras que tenham sofrido algo semelhante ao que Benigna viveu, evidenciando que a violência não tem rosto, idade ou vestimenta que a justifique. Por meio do vestido, Benigna reivindica uma presença constante. Sua história se mantém viva como uma memória que não pode ser ignorada nem reduzida a uma única imagem. 


Ao final, percebe-se que nunca se tratou apenas de ver o rosto da santa ou saber que roupa ela usava, mas de compreender como a força política de sua memória e identidade é simbolicamente representada pelo vestido vermelho de bolinhas.O curta é marcado por forte carga emocional e por um conjunto de sensações, dor, indignação e repulsa diante da violência sofrida por Benigna, mas também acolhimento, empatia e um sentimento de coletividade na fé da população.


 
 
 

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